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Com a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, a denúncia do racismo presente na sociedade brasileira permitiu que as condições de abandono pelo poder público das populações negras rurais fossem mostradas como consequência do racismo. As lideranças negras passaram a enfatizar a cultura dos antigos quilombos e valorizar as comunidades quilombolas como símbolo de resistência negra. O resultado foi o de que as pessoas negras passaram a assumir-se como remanescente quilombola e a se opor à exclusão e à exploração, às ameaças de serem expulsas das terras que seus parentes negros, desde o século XIX, haviam ocupado.

Essa organização, associação remanescente quilombolas, foi importante porque lhes garantiu unidade, preservação dos saberes quilombolas, combate ao preconceito racial e reconhecimento como pessoas negras.

Na Paraíba, as comunidades quilombolas não ficaram de fora desse processo e, a partir da década de 1980, se juntaram às demais comunidades espalhadas pelo Brasil.

Organizados e mobilizados, passaram a reivindicar dos governantes e das gestões públicas a garantia dos direitos básicos, como o título de propriedades de terras onde nasceram e foram criados, estabelecidos pela Constituição Brasileira de 1988. Por isso, várias comunidades negras vêm se autodeclarando remanescentes quilombolas na Paraíba e exigindo dos governantes estaduais e municipais o acesso a serviços importantes, como água tratada, luz elétrica, posto médico, estrada, escola e construção de casas.

Duas comunidades quilombolas se tornaram conhecidas: a Comunidade do Talhado, localizada na cidade de Santa Luzia, no Alto Sertão, visibilizada no filme Aruanda, do cineasta paraibano Linduarte Noronha, e Caiana dos Crioulos, na cidade de Alagoa Grande, no brejo paraibano, comunidade conhecida devido às mulheres cirandeiras que hoje cantam e dançam ciranda e coco de roda. Isso não quer dizer que outras comunidades não existam, elas existem espalhadas ao longo do território paraibano, localizadas do litoral ao sertão. No geral, são trinta e duas comunidades remanescentes quilombolas e outras estão com o processo de reconhecimento em andamento.

As pessoas negras que moram nas comunidade guardam nas suas memórias as histórias de como sua comunidade se formou. São histórias que forma contadas por seus pais, e narram a ação de seus parentes distantes, geralmente avós, bisavós e tetravós, homens negros e mulheres negras, que, no decorrer do século XIX, não aceitaram a escravidão, e que as terras onde moram são heranças e legados da liberdade.

Muitas comunidades quilombolas não têm documentos que lhes garanta a propriedade da terra, a exemplo do formal de partilha ou registro de compra e venda de imóvel. O direito à terra se mantém como herança deixadas pelos seus antepassados e tem se mantido através da recorrência ao artigo 68, Ato das Disposições Gerais Transitórias, da Constituição Brasileira de 1988, que garante a cidadania quilombola e vale a pena ser repetido: “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.

As comunidades quilombolas da Paraíba estão começando a contar as suas histórias. Poucas aparecem nos conteúdos escolares.

 

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